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Jones Mota - Portefólio Online

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Edmundo. A construção da identidade familiar na dramaturgia do espetáculo Álbum de Família, de Nelson Rodrigues.

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Jones Oliveira Mota

“Todos temos, indispensavelmente, um pai e uma mãe: entidades afetivas que são o ponto nodal de todo um tecido de relações (que por sinal, nos precede e nos ultrapassa) e que nos individualiza.” (RESGATE, 1991, p. 12).

A partir desta afirmação, posso avaliar a personalidade do personagem Edmundo, na dramaturgia do espetáculo Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, como uma legítima “conseqüência” da construção da identidade familiar a partir da figura paterna e materna.

Antes de discorrer mais sobre o assunto, apresento a sinopse do espetáculo, concebida por Paulo Henrique Alcântara, diretor da montagem na qual atuei como Edmundo, na segunda temporada do espetáculo, em 2009. “Em uma fazenda do início do século passado, moram Jonas, sua esposa Senhorinha e a irmã desta, Rute. Em torno da casa, louco e despido, ronda Nonô, filho do casal. Em um dos quartos, Totinha, moça da roça, está prestes a dar à luz uma criança, fruto de um adultério de Jonas. Enquanto isso, os demais filhos, Edmundo, Guilherme e Glória, regressam à fazenda. Edmundo abandonou a esposa, Heloísa, Guilherme largou o Seminário e Glória foi expulsa do colégio interno após a descoberta do seu romance com a colega Tereza. Os três irmãos retornam à casa paterna, onde são assumidos ódios imensos e amores incestuosos, que resultarão numa sucessão trágica de desatinos e mortes em três atos”.

As características psicológicas dos personagens filhos do casal Senhorinha e Jonas, são resultantes da degradação familiar apresentada cotidianamente neste leito. Pela descrição do personagem colocada pelo autor, Edmundo é o filho caçula e apresenta um comportamento sensível, após casar-se praticamente à força, ele, que nunca consumou o casamento com sua esposa Heloisa, decide voltar para casa dos pais, a fim de resolver um problema sentimental que o atormenta. Acolhido pela voracidade materna, Edmundo, envolvido num jogo de segredos, alimentado por sua mãe, se aproxima cada vez mais, na tentativa de arrancar-lhe sentimentos. Ele ama e idolatra a mãe, que ultrapassa a relação materna e adentra as possibilidades carnais e “pecaminosas”. Cria através de sua doçura, um vínculo forte com Senhorinha, que promete-lhe contar um segredo. Edmundo, já extasiado pelo exagerado afeto de sua mãe, acredita ter esperanças de que um dia ela encoraje-se e abandone Jonas (seu “Senhor”), para corresponder os seus desejos latentes. A relação entre Jonas e Senhorinha é a mais conturbada, Jonas, auxiliado por sua cunhada Rute, destrói gradativamente a auto-estima de sua esposa. O leito familiar se destroça mais ainda quando os seus filhos voltam para casa, Guilherme, que foi para o seminário, mas sempre nutriu uma paixão avassaladora por sua irmã Glória, cuja foi para um colégio de freiras onde teve um caso com sua colega de quarto, mas, que sempre disputou com a mãe o amor de Jonas, Edmundo que volta para tomar-lhe sua mãe para si e Nonô, louco que vive nu pelas dimensões da casa e que é o amante de sua mãe. Este é o segredo pelo qual Edmundo esperava com tanta esperança, sua mãe, há sete anos, o traia com seu irmão louco, motivo que leva Edmundo ao suicídio. O espetáculo termina num “velório”, com os corpos de Edmundo, Glória, que foi morta por seu irmão Guilherme, Totinha, que morre ao dar a luz a um filho de Jonas, e o próprio Jonas, assassinado por Senhorinha.

Nestas condições, Edmundo se torna mais um fruto apodrecido pela cultura familiar estabelecida, sua personalidade e trajetória de vida está completamente ligada aos fios estendidos entre os sentimentos e memórias atribuídas à família. A relação familiar é extremamente influenciadora no desenvolvimento de qualquer indivíduo, que aprende através dos sistemas de trocas de experiências. Nelson Rodrigues consegue atribuir aos personagens de Álbum de Família, dimensões de cultura, que justifica e amarra as ações de seus filhos fictícios.

REFERÊNCIAS:

RESGATE, revista de cultura do Centro de Memória - UNICAMP. Campinas, 1991 – n3.

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