O espetáculo “Jeremias, profeta da chuva”, com texto e direção de Adelice Souza, ganhador do Edital Núcleo do TCA 2009, ficou em cartaz de Junho a Agosto de 2009 na Sala do Coro do Teatro Castro Alves. Fruto de uma longa pesquisa, a dramaturgia do espetáculo é rica em símbolos e significados, conta a saga de um profeta que se fez conhecido para além das fronteiras da região de “Salvador dos Brejos” por causa de suas previsões[1] acertadas sobre a chuva, mas que ultimamente estavam completamente pessimistas. Carregada das verdades cotidianas do sertão brasileiro, a obra revelou a vida dos nordestinos que sustentam a si e aos familiares com o cabo da inchada, trabalhando na lida com as plantas e com os animais.
No cenário, percebia-se o uso do simbolismo/expressionismo através dos objetos pendurados em todo o palco, que por meio de um sistema de calhas, baldes e medidas de areia fazem os objetos subirem e descerem em cena a partir de sua representação em cada momento. A impressão de calor, sede, seca foi dada pelo som da areia sendo despejada nos baldes, pelas cores pardas do cenário, pela iluminação amarelada e pela própria essência simbólica do sol.
Onde a energia elétrica só iluminava as casas das cidades, tudo o que se via numa noite no sertão é o escuro. A lua, as estrelas e os candeeiros eram os maiores responsáveis em iluminar as noites congelantes das caatingas e cerrados. Nada mais justo que a iluminação técnica do espetáculo representar minuciosamente a escuridão das noites pouco estreladas, a cena onde o Jeremias conversa com seu pai, basicamente com a luz do castiçal que o pai traz consigo, aproxima o espectador da realidade.
Com um traçado funcional, os figurinos revelavam o povo do dia-dia, que rasgavam as roupas nos mandacarus e nas cercas de arame farpado, mas que se arrumam impecavelmente para a diversão da feira e dos festejos religiosos. A musicalidade/sonoplastia foi parte fundamental, caracterizou os sons da natureza, preparou a voz dos atores para todos os planos utilizados no espetáculo (como as visões de Jeremias), concebeu as cantigas tradicionais de forma convincente e instaurou as situações e suas resoluções.
A interpretação teve altos e baixos, alguns atores foram substituídos, por motivos desconhecidos, porém tais substituições tiverem uma grande importância na qualidade das cenas. Dois atores experimentaram o protagonista (Jeremias) nesta temporada, mas nenhum deles, mesmo representando com bastante força cênica e técnica, conseguiram alcançar um grau de internalização necessária para uma interpretação (não necessariamente naturalista, mas,) que brotasse da alma, cultura psicológica onde o personagem está inserido.
Adelice Souza constrói um deserto repleto de símbolos e esperanças, suas cenas passeiam por sentimentos sutis, numa atmosfera de lutas e sonhos. Tecnicamente, ela explora a caixa cênica, sem coxias e com detalhes inusitados, como um poço quadrado no proscênio e o rosto distorcido da imagem de uma Santa que aparece na direita alta do diretor com média de uns 3m de altura.
Na platéia, quem conhece o sertão, se identifica; quem não, se impressiona com o sofrimento do povo à espera da tão sonhada chuva. Que chega ao final do espetáculo como um banho de esperança nas mãos calejadas de um povo que há muito, sonha piamente por uma vida melhor.
[1] Feitas através da observação de alguns fatores da natureza que indicavam chuva, como o aparecimento de uma cobra de duas cabeças, etc.
Por Jones Mota
16 de Setembro de 2009

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